domingo, 17 de julho de 2016

O Movimento do Amor e a Dependência Química

Foi no começo do ano 2000 que o Alexandre Castanheira me convidou a trabalhar na recuperação de dependentes químicos, eu pra dizer a verdade nem sabia o que fazer.
Depois do meu tratamento no ano 1998 em Valinhos, na região de Campinas estava buscando o que fazer da vida, e como muitos companheiros meus que tínhamos terminado o tratamento eramos utilizados como monitores nas comunidades terapêuticas naquele tempo.
O Elías, meu padrinho de recuperação, me sugeriu que continuasse um tempo envolvido nesse trabalho, e eu obedeci, o Elías foi meu primeiro mestre, quem me guiou na vida que se apresentava estranha sem a cocaína.
Um tempo depois conheci o Douglas Possenti, ele me levou a trabalhar em Piracicaba, nesse momento o Elías entrou em cena novamente, foi ele que me ajudou com os primeiros cursos em São Paulo.
Estes cursos eram ministrados na USP, pelo Doutor Ronaldo Laranjeira e o Doutor Marcelo Ribeiro, verdadeiros crânios no que se diz a Dependência Química, isto me deu a oportunidade de trabalhar na Vila Serena, com o André Zago, outro monstro da reabilitação de pessoas, e posso dizer que os ensinamentos do Laranjeira e o Ribeiro me colocaram nas melhores clinicas do Brasil a prestar serviço como terapeuta.
Porém, algo não estava no seu lugar, faltava alguma coisa, sei lá.
Um dia um companheiro de trabalho, o Jorge Matos, que depois se transformou num dos meus melhores amigos, me comentou de um curso na FEBRACT, foi lá onde conheci o Padre Haroldo Rahm e lá onde descobri o que estava faltando.
Um dia, o Padre me chamou para conversar, isso para mim era uma honra, sendo que ele não falava particularmente com ninguém.
Entrando na sala dele, vi um outro sacerdote, o Padre Leo, os dois começaram a falar e eu não me atrevia a dizer palavra alguma, só ouvia.
Quando finalmente me perguntaram o que eu tinha ido a aprender lá, falei que queria melhorar minha técnica para trabalhar com dependência química.
Aí foi o caos, eu nunca teria que ter falado isso!!
Os dois caíram na gargalhada!!
Quase morro de vergonha!!
Fiquei totalmente sem jeito!!
O Padre Leo então se desculpou, falou que o Padre Haroldo falava muito bem de mim, e que apenas eu deveria melhorar num ponto.
O que é para você o Amor? Perguntou o Padre Leo
Fiquei mudo, paralisado.
Pois é ali que você deve melhorar rapaz! Ele falou.
Vou te explicar, se você pretende trabalhar com seres humanos, você deve aprender o movimento do Amor. Me diz entre sorrisos.
O movimento do Amor consiste em sair de você mesmo, da tua sabedoria burra, das tuas ideais idiotas, de todo o conhecimento que você pensa que tem, e ir ao encontro do outro, do jeito que ele estiver e onde ele estiver. Possivelmente o outro te rejeite, te frustre nas tuas expectativas, tal vez ria da tua cara, te faça de bobo, porém, quem te receba, quem te perceba e perceba que não é pelo teu orgulho que você esta querendo ajudar, esse com certeza vai te agradecer e te levar em conta no dia que decida dar um passo rumo a nova maneira de viver.
Ainda você mesmo pode tentar fazer esse movimento consigo mesmo, porque você, meu rapaz você esta formado por dois elementos, o corpo e a alma, e um tem que amar o outro, quer dizer, você deve ser menos corpo e deixar que a tua propria alma tome conta dele, como se a tua alma, fosse ate ele.Falou o Padre
Cá entre nós, não da para questionar duas pessoas que além de  se dedicar por anos a fio a resgatar pessoas, e tem feito obras que transcendem o tempo e as fronteiras. Ne?
Desde aquele ano de 2002, passei por muitas situações, pessoais e de trabalho, muitas coisas, algumas boas, a maioria nem tanto, mas, cada vez que me deparo com algum dos rapazes que hoje tento ajudar, por mais que eu tenho aumentado meu conhecimento e experiência, nunca me esqueço das palavras daqueles homens de Deus, que me ensinaram o movimento da única coisa, do único elemento que a ciência não explica e que pode fazer toda a diferença...o Amor
                                                                                                      Carmelo J.Serra