Aquela cruz branca e vazia em Sapiranga foi um sinal.
Eu sempre acreditei que o melhor esta por vir, porém nunca tinha experimentado isso com tanta intensidade, de uma maneira tão real.
Tal vez o me perder
foi a melhor maneira de me encontrar, tal vez o perder a própria Fé
tenha sido a melhor maneira de começar a creditar em algo que, eu já sabia,
teria que ser muito maior que eu mesmo, muito maior que todo o que eu ate ali
tinha que ter acreditado.
Sei que eu mesmo de tanto andar buscando o lugar e o momento,
de tanto querer fazer a coisa certa, já não sabia para onde, ou como isto
poderia ser feito.
A única coisa que fiz, foi apenas não perder o desejo, de
encontrar o norte, de resgatar o melhor de mim, de encontrar isto nalgum lugar
onde tal vez fora guardado o resto, a fim de que pelo menos os sonhos fossem
preservados.
A única decisão que tomei foi a de não mexer um músculo si
quer, não me mexer, ficar quieto, como esperando um sussurro, uma voz de um ser
invisível que tendo sido trazido pelo vento da serra me indicaria o que deveria
ser feito, e isso aconteceu.
Precisei saber depois se aquilo obedecia ao meu ego apenas,
ou se era realmente a voz desse ser, dessa alma.
Antes de dar um passo com os meus pés, o dei com o espírito,
tentado descobrir o que depois poderia acontecer, aprendi algo sobre a
temperança, aprendi a reconhecer a voz desse Deus desconhecido por mim na voz
de alguém, desse alguém vou falar depois, não que faça de pessoas a mesma voz
de algo alem da matéria, mais também aprendi que a melhor e talvez única
maneira que o espírito tem de falar com a gente é na voz de alguém fora da
nossa própria voz interior, basta reconhecer o Amor nessa voz externa, essa voz
nunca ira nos machucar.
Sem pressa voltei naquele banco, de frente para aquela cruz
branca e vazia, lá no alto da serra, observei os pássaros, percebi que as aves
que lutavam contra o vento não conseguiam avançar muito nem fazer grandes
evoluções, parecia como se elas estivessem amarradas a invisíveis cordinhas que
não as deixavam chegar nem muito alto, nem muito longe nesse magnífico Van Gogh
verde das Acácias da serra de Sapiranga, enquanto que aquelas aves que
descobriam no céu os caminhos traçados pelas correntes de ar, elas sim,
conseguiam voar mais alto, quase se perdiam no fundo azul cristal do céu, e
desapareciam de tão longe que iam, levadas como que por uma mão gigantesca, e o
mais formoso desta paisagem era que elas nem precisavam fazer nada alem de se
deixar conduzir, aprendi que as aves estão feitas para voar, assim como nós,
seres humanos fomos criados para alcançar os objetivos e a plenitude, desde que
façamos o melhor de nós para descobrir os melhores caminhos e aprendamos a
interagir com isso, que esta além da gente, que é detentor de uma sabedoria
maior que a nossa, que tem total poder de abrir o caminho, que se chama Deus.
Nesse momento não tomei a decisão, eu a senti, algo se
ativou dentro de mim, tinha chegado a hora, me levantei daquele banco, desci
aquela serra de passo em passo, ouvindo as quedas d’água ao lado do caminho,
conversando em assobios com os Sabias, em Paz, sem pressa, me deixando levar
pelo vento, com os olhos bem abertos da alma, já não era preciso prestar atenção aos meus
medos...
Carmelo J. Serra

Nenhum comentário:
Postar um comentário